Após receber uma denúncia a respeito da falta de médicos no Hospital Regional Monsenhor João Batista de Carvalho Daltro (HRL), no município de Lagarto, o Conselho Regional de Medicina do Estado de Sergipe (Cremese) decidiu realizar uma vistoria na unidade hospitalar a fim de averiguar o teor das denúncias recebidas. Uma delas diz respeito à falta de anestesiologista na unidade de saúde, médicos do centro cirúrgico precisaram fazer a anestesia em um paciente por meio de videoconferência.

De acordo com a entidade, durante a fiscalização realizada em janeiro de 2022 o Conselho identificou problemas na escala médica, que acabou ocasionando outras desconformidades, como por exemplo: restrição de plantões, sobrecarga de pacientes acima da capacidade para atendimento e prejuízo na estrutura do Hospital.

Segundo o presidente do Cremese, Jilvan Pinto Monteiro, a situação é crítica. “A falta de profissionais no atendimento, principalmente no pronto-socorro, pode afetar diretamente a evolução clínica dos pacientes”, afirmou o médico.

O Cremese diz que a situação atual do hospital não chega a ser novidade, já que há alguns anos a unidade hospitalar vem passando por problemas semelhantes. “A desconformidade na escala médica é um problema antigo do Regional de Lagarto, identificada no ano de 2017, quando o Conselho interditou eticamente o Hospital devido a falta de profissionais. Em 2018, por força de um Mandado de Segurança houve a desinterdição da unidade de saúde, mesmo com a persistência do problema em questão”, diz a entidade.

O Cremese destaca ainda que em anos anteriores novas fiscalizações foram realizadas no local, notificações foram encaminhadas aos responsáveis pela instituição e ao Ministério Público Estadual (MPE), e mesmo assim, a falta de médico na escala do Hospital continuou. “Por isso, no ano de 2020, um novo processo de interdição ética foi deflagrado, mas precisou ser suspenso por conta do início da pandemia. Com o crescimento da demanda de atendimentos na unidade ocasionados pelo avanço da Covid-19, a direção do Hospital Regional convocou médicos que haviam sido aprovados no concurso público vigente, mas o chamamento não obteve sucesso, não sendo suficiente para suprir a demanda”, salienta a entidade de classe.

Por fim, diante desse cenário o Cremese destacou que vai tomar medidas legais necessárias na tentativa de resolver de forma definitiva o problema da falta de médico.

Hospital de Lagarto

O Hospital Regional de Lagarto se manifestou por meio de nota e explicou a situação com o paciente. Confira o trecho na íntegra:

“O paciente que necessitou do procedimento cirúrgico adentrou o hospital por meios próprios com quadro de ferimento por arma branca em região abdominal, inicialmente estável hemodinamicamente. Devido à falta de anestesista escalado para o plantão no referido dia, previamente já notificado à Central de Regulação do Estado, a cirurgiã geral que realizou o atendimento fez a regulação do paciente para o HUSE (unidade de referência).

Durante o transporte do paciente pelo SAMU, o mesmo apresentou instabilidade hemodinâmica e a ambulância, por se tratar de uma unidade básica, sem a presença de médico, necessitou retornar ao hospital para estabilização do paciente, visto que o mesmo não apresentava mais condições de transporte naquele momento.

Realizado contato com o Hospital de Itabaiana, mais próximo, para que recebesse o paciente, a solicitação foi prontamente acatada. Após estabilização do paciente, foi realizada intubação orotraqueal e expansão volêmica com soroterapia e hemotransfusão, mas sem sucesso na reversão do quadro de instabilidade, o que impossibilitou o transporte do paciente para o município vizinho.

Como medida para salvar a vida do paciente, os plantonistas da clínica médica assumiram a função de anestesiar o paciente para que os cirurgiões pudessem realizar o procedimento cirúrgico para controle do sangramento. Pela impossibilidade de postergar a abordagem cirúrgica, devido à gravidade do quadro do paciente, o chefe do serviço de anestesia auxiliou remotamente os médicos no manejo intraoperatório do paciente. O paciente resistiu ao procedimento cirúrgico e encontra-se em recuperação na unidade de terapia intensiva no hospital de Lagarto”.

Providências

As providências internas foram tomadas, tanto pelo HUL quanto pela Ebserh Sede, com um novo redimensionamento de pessoal que mostrou a necessidade do aumento do quantitativo de profissionais no quadro assistencial do hospital. O mesmo foi encaminhado à Secretaria de Coordenação e Governança das Empresas Estatais (SEST), ligada ao Ministério da Economia, para que a mesma pudesse autorizar as vagas pleiteadas e assim a realização da convocação dos aprovados em concurso público. Ao mesmo tempo, foi comunicado aos órgãos competentes, como SES, Secretaria Municipal de Saúde de Lagarto e Ministério Público Federal para conhecimento da iniciativa”. E lembrou que durante a pandemia o HUL contratou mais de 250 profissionais temporários para enfrentamento à COVID-19. “Associado a isso, foi aberto 30 leitos de terapia intensiva, 30 leitos de enfermaria e 3 leitos de observação/estabilização. A unidade hospitalar também atuou de forma efetiva para colaborar com a Saúde do Estado de Sergipe, atendendo mais de 4800 pacientes e internando e cuidando de mais de 1900 usuários acometidos pela infecção”.

Baixa adesão dos profissionais às convocações

O Hospital também ressaltou a baixa adesão dos profissionais às últimas convocações. “Há disponibilidade de 12 vagas para clínica médica, cinco para anestesiologista e cerca de mais 20 vagas para demais especialidade médicas. Desta forma, tem ocorrido convocações sucessivas do edital nacional do concurso público vigente, porém com baixa adesão, por se tratar de candidatos residentes em outros estados ou regiões, já que o concurso é nacional, o que tem dificultado o preenchimento dessas vagas. Lembrando que contamos atualmente com 11 anestesiologistas no quadro de médicos do hospital.

Sobrecarga de pacientes

A sobrecarga de pacientes acima da capacidade de atendimento se dá por três motivos: primeiro, o crescimento do hospital através da criação de novos serviços como tomografia computadorizada, endoscopia, colonoscopia, fibrobroncoscopia, ambulatório de especialidades médicas, tornando-se dessa forma referência para a região de saúde. Segundo, pelo agravamento ou agudização das doenças crônicas, que ficaram represadas durante a pandemia, mas que agora têm levado muitos pacientes ao hospital em busca de atendimento. E terceiro, pelo aumento da incidência de traumas e agressões interpessoais na região, que por vezes motivam a necessidade de cuidados de internamento hospitalar.

Fatos esses, que podem ser comprovados através de mais de 3.000 atendimentos prestados mensalmente pela porta de Urgência do hospital, que resultam em mais de 400 internamentos mês, mais de 100 cirurgias mês (entre ortopédicas e gerais), e uma taxa de ocupação que tem girado em torno de 120 / 130 por cento, diariamente.

Importante ressaltar que o hospital não pode prover a totalidade de atendimentos da região, cabendo também aos municípios a oferta de serviços que atendam às demandas de saúde locais através da atenção primária, como: UPAs, UBSs e demais estruturas de atendimento básico.

Fonte: Infonet

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3 comentários

  1. É impossível faltar médicos para atender paciente, é um direito de todos, e isso não está acontecendo. O usuário chegando lá, falam: só atende urgência, não sabendo a situação em que se encontra o paciente, seu quadro clínico. O Brasil tem que estudar melhor a respeito da saúde com seriedade, dedicação e amor. Não só da parte dos médicos. Mas sim, dos governantes, que não tem bons olhos pela saúde humana, principalmente os mais necessitados. Mas quando se aproxima as eleições num instante se arranjam, farsas para cobrir o sol com a peneira, e sempre os brasileiros caem nas armadilhas. Quando é que esses políticos vão mudar, quando é que vão parar de olhar pra si, e pensar mais na sociedade mais carente. Muitos dos médicos não querem trabalhar no interior essa é a desculpa que passam pra mídia.

  2. Não foi simplesmente revelado a podridão da política brasileira, sim o perfil da grande maioria da sociedade brasileira. Gostam de facilidades e viver sob a égide do badulejamento.

  3. Se anteriormente estava sob responsabilidade do Estado de Sergipe, havia problemas idênticos; com federalização do hospital o fato se repete. Isso demonstra o descaso com a saúde pública nas três esferas de gestão pública. Fica clara a falência do SUS e a necessidade urgente de um modelo que possa atender todas as classes sociais do nosso país.

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